A obra da Música - Primeiras idéias
Estava pensando nas expressões artísticas e o que cada tem como obra de arte, ou seja seu produto final. Parece que há dois grandes tipos de obra: as materias e as de execução. As primeira mantém autonomia em relação ao autor, como por exemplo um livro, o qual, uma vez feito, se entrega à mercê de quem a ele vem de encontro; esse encontro será tão diverso como são os tipos de leitores, mas, sempre partirão de um mesmo dado material: o livro. Já as de execução tem em si uma dependência direta em relação ao artista, como uma peça de teatro prescinde de atores, salvo peças muito peculiares (maldito Beckett), sem eles não há peça. Neste caso, o acesso a esta arte é menos um dado material (os movimentos e gestos da arte interpretativa), e mais uma impressão que se tem em relação ao todo: texto da peça, atuação, iluminação, etc. Se o espectador começa um devaneio no teatro perde uma cena; já no livro basta que ele respire fundo e volte ao paragrafo que leu com desatenção.
Esta divisão do tipo de obra pode ocorrer dentro de uma mesma arte, no caso da música, a composição e a execução pertencem cada qual à uma natureza distinta de obra de arte; a composição, uma vez escrita, é materialidade, sua execução ja se dá no campo do efemêro. E essa era, até uns cem anos atrás, uma caracteristica da arte músical: precisava ser executada. Com a execução sempre se evidência um lugar e um corpo aonde a música é feita: O bebop era aquela avenida cheia de jazzistas varando madrugadas a tocar música de negro para os negros, e alguns poucos corajosos brancos que iam até lá; tinha que ser naquela época e naquele lugar.
Tocar me coloca sempre em um presente, apesar de estar sempre atento ao futuro e o passado da música que estou executando a minha percepção não vai além da música executada. Também sempre estou tocando em um lugar, com certas pessoas, com uma certa luz, etc que fazem que cada vez seja única. Essa obra que não dura, esse eterno ter que refazer é algo que realmente me fascina quando toco.
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Percepção sobre a Música
Peguei-me outro dia pensando sobre arte. A primeira pergunta que veio na minha cabeça foi: por que faço música? Como essa pergunta remete a procurar causas, que nunca bastaram para delimitar seu por que, resolvi mudar para: o que tem a música de próprio? Resolvi arquivar essa perguntar e responder quando a vida me desse alguma pista, e não é que essa pista veio logo?
Sentado na sala vendo um filme, percebi que era muito estranho eu me comover com a história de alguem que eu conheci à no máximo uma hora. Como eu poderia rápidamente já me imaginar na situação daquela personagem? Percebi que não era só uma imagem que me atingia, havia a música. Tampei os ouvidos. Restou somente a imagem em movimento, longe de mim. A visão é o sentido com o qual nos conectamos ao longe (mesmo sem luneta). Abro minha orelha e logo a música me toma, me "invade", me preenche, me diz algo intimo meu. Apesar da melodia ser para todos, quando me toca ela ja participação de uma relação de intimidade comigo.
A música tem como canal de percepção o ouvir. Mas o ouvir não é algo como o tatear? Talvez não em tudo, até por que não teriamos uma palavra para cada. Mas, se nos atermos ao fato de que o tato sempre diz respeito a algo que está próximo de mim, talvez o ouvir compartilhe esse mesmo estar perto, sempre. A diferença aparece para mim que, na música, algo ressoa dentro de mim. Já o tato é algo que tenho certeza que está fora com o qual compartilho um encontro de texturas. E por essa falta de saber quando estou dentro ou fora de mim a música me agrada.
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Na última terça-feira ocorreu a derradeira noite da nossa temporada em maio no Berlin! E agora agüentem (se é que alguém lê isso aqui além de mim e do Carlinhos) porque vai rolar um certo sentimentalismo nostálgico de minha parte... Mas como isto é um blog e precisa ser alimentado de vez em quando, aqui vai uma contribuição:
Acho que quase todo ser humano tem um sonho... Por um lado, por mais fudido que você seja, existe pelo menos o sonho de ter uma vida melhor. Por outro, se você tem e pode ter de tudo, com certeza ainda vai faltar alguma coisa que você não pode comprar... Pois é, meu sonho sempre teve a ver com música, com tocar, com um sentimento narcísico (do qual não tenho vergonha ainda mais agora que estudo Freud!!!) de mostrar a todos uma arte que sempre esteve latente e ter o prazer de receber a admiração alheia como retorno...
Por cima, os cinco shows no Berlin tiveram uma média de 200, 250 pessoas por noite... Isso quer dizer que, descontando aqueles que foram mais de uma vez, mais de 1000 pessoas tiveram contato com a nossa música, algo inimaginável para esta banda há menos de 1 ano... Dessas, muitas se transformaram em importantes contatos para que nosso sonho continue caminhando pra onde quer que seja... Outras que nunca haviam ouvido falar de nós, comentaram com entusiasmo sobre as músicas, as performances, como nunca havíamos visto... Mas inacreditavelmente o sentimento de felicidade de agora nada tem a ver com essas últimas linhas... Claro que a satisfação é imensa por esse progresso enquanto banda, mas existe algo a mais.
Já cheguei a duvidar que um dia experimentaria a plenitude de tocar e ao mesmo tempo transcender... É preciso tanto trabalho duro, tanta prática, tanta cobrança interna e externa para conseguir organizar, subir no palco e fazer tudo direitinho que eu nunca imaginei que o êxtase que enxergava nos olhos de meus ídolos ao tocar, aquilo que parecia ser uma sensação sobre-humana, um dia pudesse emergir da minha própria alma... Houve momentos em que as músicas voaram, fluíram de modo assustadoramente mágico... Carlinhos se contorcia e emitia sons guturais, Simão virava os olhos enquanto solava, Felipe parecia acordar de um desmaio após algumas músicas... Olhava em volta e só via amigos, todas as noites, todos sorrindo, dançando, curtindo... Pessoas que fazem questão de prestigiar nossa arte, que nos acompanham há tantos anos, que sempre nos deram tanta força, que todas as vezes são as primeiras a comprar nossos cds, a nos incentivar, a notar que 'aquele' arranjo mudou, que estamos tocando melhor... Espero ter retribuído a vocês isso tudo que vocês nos dão!
E sobre os sonhos, cada vez vai ficando mais claro que mais importante do que abraçar o mundo é a qualidade do abraço e não quantas pessoas participam dele. E hoje, mais do que isso, o que realmente importa é o quanto eu mesmo e meus amigos do culto estamos satisfeitos com o que fazemos e como as pessoas de quem gostamos igualmente estão.